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sábado, 27 de dezembro de 2008

O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO E O VÉU PINTADO

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Às vezes, quando penso em reclamar da idade, por não ser satisfatória, da impossibilidade de haver um botão mágico que me faça retornar aos vinte anos, penso também o quanto a vida pode ser entediante.

Mas, por enquanto, apesar de o tédio ser um ataque constante, é o inimigo que derroto mais facilmente, até com uma boa masturbação o ponho à nocaute, ou com uma Heineken (quando ainda bebia).

Falando em masturbação, estou com 45 anos de idade (à época da blogada; pois sou de 1963) e não tenho o mínimo de uma idéia bem embasada sobre a masturbação feminina. 

Comento isso porque em blog escrevemos de tudo e para todos, e fico pensando, qual o efeito na cabeça de uma mulher comum ao “ouvir” a palavra masturbação. 

Acho que Deus é mesmo o bam-bam-bam, e determinou certinho que temos que bater as botas; porque a vida é belíssima, fantástica, mas chega a seu tempo. Temos que ser julgados, perdoados, ou passar uma temporada com os diabos e partir pra outra etapa de sensibilidade. 

Há momentos em que não dá pra agüentar mais, nada do mesmo. Tem horas que ouvir e ver é um porre. Ainda mais que a falsidade necessária ao cotidiano é indesviável “bom dia!” (putz, que vontade de esganá-la, essa falsa...). 

Bem, Somerset Maugham nasceu para escrever. E nasceu para escrever a coisa mais gostosa que existe na literatura, um bom romance. Escrever bons romances não é fazer bolinho de chuva. Que o diga Sartre, dono de uma mente fantástica, e que respirou livros desde a infância “desconfio do poder que existe nisso” (ele não sabia ler ainda, mas fingia ler, com livro ao colo) e escreveu tanto e de forma tão complexa que até hoje não o entendem bem, mas não escreveu romances, propriamente ditos (embora haja críticos que contradizem isso). 

Num artigo após sua morte, Paulo Francis nota que Sartre morreu esquivo, misterioso em suas coisas, mesmo tendo sido tão atuante e virulento naquilo que pensava. Um dia, influenciado por minha lenga, um grande amigo, Gustavo, que hoje está em Londrina, baita sujeito, com o grave defeito de ser corintiano (ninguém é perfeito), inteligente e inclinado à cultura geral, resolveu ler Sartre. Acho que começou pelo “O ser e o nada” e me relatou a experiência “Jorge, li um pouco, joguei o livro em uma das paredes e nunca mais quis saber de livros do Sartre; ‘jamais leio esse cara novamente’”. 

Há críticos não cerimoniosos que simplesmente apontam que entre os grandes escritores Sartre escreveu os piores romances “existentes”. Maurice Blanchot o resgata num trabalho chamado “A parte do fogo”, mas Blanchot é capaz do que quiser em crítica literária. 

E Somerset, já falei dele em blogada anterior, é, sim, um mestre dos romances; com uma escrita muito, mas muito acima da média dos grandes; ele é mesmo refinado, genial. 

Em “O fio da navalha”, para mim escreve a história que poderia ser a única que escreveu e com tal seu nome deveria ecoar por todo o universo com outra palavra colada: “romancista, o romancista”... 

Em "O Fio..." ele nos mostra um sujeito que resolve buscar Deus, no mundo, por todo lugar onde digam divino, no mundo. E chama a noiva linda para ir junto, ela não vai, ele a deixa e parte... Ele já começara a busca em horas infindáveis nas bibliotecas, onde pega "pistas..." de onde esteja Deus. E vejam, ele encontra Deus. E não pensem em bobagens carolas, é outra coisa que ele encontra; quem leu o livro sabe, quem não leu, tenha uma boa notícia, fácil de encontrar pelos sebos presentes na Estante Virtual. 

Mário Puzo trata cirurgicamente em “Os tolos morrem antes” de como o cinema lida, às vezes, na verdade muitas vezes, porcamente com os escritores, lhes tomando sangue suor e lágrimas para transformar em porcaria e dólares. E há nisso reflexos de uma indignação coletiva entre escritores e leitores. Sendo assim, é coisa feia quando pegam um escrito e transformam numa merda de filme.

Amo o cinema, amo talvez tanto quanto a literatura, às vezes... Mas, o cinema sabe esculhambar a escrita quando quer, e se fazer de inocente... Então, mas com “O véu pintado”. Foi assim: 

CARAMBA!!!!!! O FILME É UM SHOW!!! Se Maugham pudesse verificar o que fizeram, talvez aprovasse; creio mesmo que aprovaria... 

Eu o assisti com vários medos, desde o temor de me decepcionar novamente com versões de grandes obras até o medo de reviver a dor que senti ao identificar a traição artística com minha dor real, na traição clássica que sofrera... Sentir que sim, você perdeu para um tolo. 

Mas perder é parte constante da natureza humana, ser derrotado e reagir modo à poesia “Ser capaz” de Kipling (está via Google em mil cantos da internet) e perder para grandes, não dói tanto...

...Como diz Lúcifer (na obra "O Diabo", de Geovanni Papini) a um dos seus demônios, que o repreende “Mestre, estás aí a escutar hinos, furtivamente, justamente cantados para aquele que te derrotou?”. “Tolo, -responde- não sabes que o destino do derrotado é para sempre ligado ao vencedor, quando se trata de uma grande batalha? Ah se eu soubesse que tipo de seguidores teria ao empreender luta contra Deus... Talvez não tivesse empreendido a revolta”. 

Pois bem, perder para grandes pode ser até uma honra... Mas voltando para o filme. Edward Norton, como sempre, é um espetáculo dramatúrgico à parte, como também o é a atuação apaixonante de Naomi Watts (aquela de King Kong). Olha, eu não esperava tanta competência, não esperava que fizessem não somente jus a Maugham, mas se superassem em tempos de cinema tão comercial.

Creio que vendo o filme podemos sentir que entendemos ao menos momentaneamente, algo que jamais conseguiram explicar direito, o amor conjugal. Entendemos o quanto há desconcerto escondido na arrogância da linguagem escrita, incapaz de sozinha dar cabo de um conto em todas suas possibilidades. 

Maugham escreveu algo fantástico e eu pensei à época “só em romance escrito”, pois bem, vem o cinema e... ...vejam o filme, que tem outro nome, e acho que muitos que lerem o blog já o assistiram. Meu filho, jovem de 17 anos o assistiu e, inclinado muito mais à aventura e outros gêneros mais de ação, ficou de boca aberta, gostou mesmo. E aconselho, assistam novamente... Sim, mais de uma vez... “O despertar de uma paixão”... Eu acredito que aquilo existe, e acredito que não esteve tal capacidade, infelizmente, ao meu alcance... A maneira como ele pôde amá-la... uma vez, duas vezes... “O despertar de uma paixão”, “O véu pintado”... Maugham... antes da literatura, a contragosto fez medicina, mas nem quis saber, pois já aos quinze anos uma angústia lhe dizia: "Escreva histórias, escreva romances, opere almas e não a carne..." Felizmente ele ouviu a própria angústia. Neste endereço o Wikipédia honra a angústia maughamniana com um pequeno aperitivo sobre o autor, http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Somerset_Maugham. Vale, mas, o filme é “outra história”...

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